BD-Á-Bá: Lançamento do álbum de BD «O Pequeno Deus Cego»

É já no dia 21 de Outubro que tem início um dos mais importantes eventos da BD nacional: o Festival Internacional de BD da Amadora, vulgo FIBDA.

Esta edição, que é já a 22ª, tem como tema o humor e apresenta no seu programa toda uma série de exposições, lançamentos, sessões de autógrafos e conferências que prometem ser razão mais do que suficiente para receber visitas de pessoas de todas as idades.

O local é o mesmo dos últimos anos, o Fórum Luís de Camões na Brandoa, e o evento durará até dia 6 de Novembro.

Mas já que falamos de lançamentos, ao segundo dia do FIBDA e já no próximo Sábado dia 22 de Outubro, por volta das 15h, será apresentado o livro de BD “O Pequeno Deus Cego” da editora Kingpin Books.

Um álbum escrito por David Soares (autor de romances como “A Conspiração dos Antepassados”, “Lisboa Triunfante” ou “O Evangelho do Enforcado”, todos eles publicados pela editora Saída de Emergência, e de álbuns de BD como “Mucha”, também da Kingpin Books, “É de Noite que faço as Perguntas”, nomeado para Melhor Álbum Português e para Melhor Argumento para Álbum Português da actual edição do FIBDA, ou “Cidade-túmulo”), desenhado por Pedro Serpa (ilustrador, animador e autor de BD no seu blogue e no álbum “Sete Histórias em Busca de uma Alternativa”) e legendado por Mário Freitas (também editor da obra, dono da Kingpin Books e autor de BD em álbuns como o recente “Super Pig: Live Hate”, pelo argumento do qual está nomeado para o prémio de Melhor Argumento para Álbum Português do FIBDA 2011).

“O Pequeno Deus Cego” promete ser mais um álbum de banda desenhada a merecer toda a atenção do público, não só o da BD mas também aquele que é sensível à arte em geral, ao domínio da criatividade e até da filosofia.

Nas palavras dos autores, trata-se de “uma história alegórica, de contornos herméticos, passada numa fabulada China ancestral. Filosófica e visceral, em simultâneo, é uma banda desenhada que irá resgatar o leitor das trevas para a luz.”

Na antecipação ao lançamento da obra, o argumentista David Soares fala-nos não só deste novo álbum mas também um pouco do seu percurso até à data.

O que te levou a escrever “O Pequeno Deus Cego”? Quais foram as tuas principais motivações ao idealizar esta obra?

Em síntese, “O Pequeno Deus Cego” é uma história sobre a saída das Trevas para a Luz, mas cada leitor dará os seus próprios significados, relacionados com as suas experiências, a essas Trevas e a essa Luz.

Numa leitura mais ou menos superficial, pode ler-se “O Pequeno Deus Cego” como sendo uma história fantástica, passada numa fabulada China ancestral, no período ‘feudal’ (embora a China nunca tenha tido, em altura nenhuma, um verdadeiro feudalismo, que é algo completamente enraizado e devedor da tradição judaico-cristã europeia).

Porém, sob outra observação, alegórica e correspondente com sistemas simbólicos e filosóficos do esoterismo ocidental, “O Pequeno Deus Cego” ganhará sem dúvida um sentido mais profundo.

Essa leitura mais iniciática (chamemos-lhe isso) pode fazer-se e, como é evidente, a minha voz autoral passa totalmente por aí, mas, lá está!, ninguém precisa de ser entendido nessas matérias enigmáticas para ler e gostar do álbum.

A história funciona muito bem ao nível mais imediato; contudo, quem quiser fazer uma leitura esclarecida poderá apreender com amplitude algumas das mensagens que deixei.

Isto relaciona-se com a maneira como eu vejo a arte da escrita, tanto para banda desenhada como para romances: para mim, escrever é transmitir, nunca é comunicar. Em arte, a comunicação é impossível, a não ser que o criador se ponha ao lado do leitor ou espectador e lhe explique a sua interpretação pessoal da obra que criou.

Eu escrevo e as obras vão sozinhas para as mãos dos leitores: não tenho interesse nenhum em forçar a minha leitura sobre as deles. É por isso que digo que transmito e que não comunico.

Não me interessa comunicar, interessa-me transmitir: e, nessa óptica, o leitor tem de ser mais que leitor – tem de ser cúmplice. Cúmplice no sentido em que desbrava, interpreta a obra, em vez de limitar-se a apreciá-la. Apreciação não é compreensão. Não escrevo para leitores preguiçosos. Escrevo para leitores que, com efeito, gostam de ler.

Também não deixa de ser curioso que “O Pequeno Deus Cego” seja uma história passada na China, mas que não tenha nada a ver, directamente, com a cultura e mitologia chinesa: é uma história completamente ocidental.

Talvez isso se integre na sua linguagem simbólica. Confesso que algumas das alegorias e símbolos contidos no álbum são muitíssimo subtis.

Depois da colaboração bem sucedida com o ilustrador Osvaldo Medina em “Mucha” (Kingpin Books, 2009) como surge agora esta com Pedro Serpa? Como avalias a sua interpretação do teu argumento?

Foi o editor, Mário Freitas, que me sugeriu o Pedro como sendo um possível artista para desenhar esta história. A interpretação que o Pedro fez do meu argumento é completamente literal: todos os meus argumentos de banda desenhada são meticulosos, descritos vinheta a vinheta e acompanhados de ‘layouts’ das pranchas feitos por mim, por isso aquilo que se vê na arte finalizada é exactamente aquilo que escrevi.

Existe, claro, algum espaço para o ‘improviso’, desde que não rompa a narratividade definida pelo argumento. De resto, a expressividade gráfica do Pedro é única, porque ele é um artista que possui algo raro – e que eu adorei desde o início: a capacidade que tem de, em simultâneo, desenhar o tenebroso e o luminoso.

Tem um traço delicado e poético, mas ao mesmo tempo cruel e temerário. O seu trabalho de colorista é extraordinário: as cenas nocturnas que pintou são magníficas. Este é o seu primeiro álbum, mas revelou-se um profissional com o qual quero trabalhar novamente.

Nos últimos anos, e mesmo após o teu regresso à BD, tens escrito vários romances bem recebidos pela crítica. Vais manter os dois registos ou sentes que mais tarde ou mais cedo vais acabar por escolher um?

Sou escritor. Trabalho com palavras e com linguagens narrativas. Há algumas que gosto mais que outras, como a do romance e a da banda desenhada.

Quando escrevo para banda desenhada, visualizo os planos e as sequências com muita facilidade e uma das intenções principais, no que concerne à forma, é criar bons planos e boas sequências, porque uma das coisas que mais me fere a vista é ver banda desenhada mal sequenciada.

Pode ser-se um bom desenhador e ser-se um péssimo ‘sequenciador’ – com efeito, isso é muitíssimo frequente!… Porquê? Porque ‘sequência’ é apenas narrativa – e quem escreve boas narrativas são os argumentistas.

A maioria dos desenhadores só quer mostrar que desenha bem, ou desenhar aquilo que mais lhe apetece em determinado momento, e não está realmente interessada em contar boas histórias.

Todas as bandas desenhadas que guardamos na memória, aquelas que repercutem na nossa memória, são todas grandes uniões entre a arte e o argumento. Não me vejo a ‘escolher’ uma linguagem narrativa em prejuízo de outras, como veículo exclusivo para a minha voz autoral.

Há histórias que quero contar em prosa e outras que quero contar em banda desenhada e quando tenho uma ideia para uma história ela já vem com cunhos distintivos: ou é uma coisa ou é outra, não a transformo, não a forço a ser algo que não é. Isso é muito importante.

No passado, em livros como “Cidade-túmulo” (Círculo de Abuso, 2000) mostraste qualidades também no desenho. Porque decidiste dedicar-te exclusivamente à escrita?

A minha vontade de desenhar desapareceu, depois de ter publicado o álbum “A Última Grande Sala de Cinema”, em 2003. Porquê? Não sei. Simplesmente, extinguiu-se. Tudo aquilo que tenho para contar, neste momento, é em exclusivo pela minha escrita e não pelo meu desenho.

Acho que o meu estilo de desenho não é virtuoso, nem bonito, mas tem qualidades que se aplicaram muito bem às histórias que contei através dele, porque é sujo e muito negro. Não é um desenho que sirva para todo o tipo de histórias.

De qualquer das formas, a vontade de ver bandas desenhadas escritas por mim, mas ilustradas por outros artistas sempre existiu: encontrar desenhadores que tenham vontade de trabalhar com um argumentista é que não é fácil.

Adoro a linguagem da banda desenhada e tenho mais ideias para novos álbuns. Enquanto encontrar desenhadores que queiram trabalhar comigo, nunca deixarei de fazer banda desenhada.

Em Portugal, há muita gente que gosta de BD mas que, por alguma razão, ainda não decidiu descobrir os valores nacionais. Queres deixar alguma mensagem para esse público?

A banda desenhada portuguesa tem trabalhos e autores excelentes. Entrem nas livrarias, conheçam os álbuns e escolham aqueles que mais gostarem. O facto de não gostarem de um título, em especial, não significa que não possam encontrar outro que desperte a vossa atenção: a banda desenhada portuguesa não é toda igual.

“A vida da pequena Sem-Olhos torna-se uma tragédia quando a mãe determina que ela seja iniciada num sangrento rito tradicional, mas ainda mais doloroso é o grande segredo da família, oculto no passado, que duas personagens misteriosas irão desmascarar. Poderá Sem-Olhos ser um pequeno deus sobre a terra?”

A questão suscita interesse assim como a passagem que a contém. Por isso, e convém repetir, no próximo Sábado por volta das 15h no auditório do Amadora BD, não deixe de assistir ao lançamento da obra com as presenças do editor Mário Freitas e dos autores David Soares e Pedro Serpa.

A BD nacional continua a produzir bons títulos e a revelar excelente autores! Vale a pena ser curioso…

 

Para mais informações, consulte os seguintes links:

Portal do Festival Internacional de BD da Amadora

Perfil da Kingpin Books

Blogue de David Soares

Desenhos de Pedro Serpa

 

André Oliveira

 

aproveite ainda para ler:

entrevista com António Valjean, autor e ilustrador de BD

IX edição dos Troféus Central Comics

 

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