Mesinha de Cabeceira

Um romance intemporal, com 40 anos de atraso

«Claraboia» é aquele que seria, caso não tivesse a vida sentido oculto algum, o segundo romance de José Saramago, depois de «Terra do Pecado», de 1947.

Finalizado cinco anos passados sobre o primeiro, quando Saramago contava 30 de idade, «Claraboia» acabou por não ser publicado, depois de o editor ter recebido e ignorado o manuscrito, não se dando ao trabalho de responder ou devolver o original ao futuro Prémio Nobel.

E é aqui que o sentido oculto da vida (é não ter a vida sentido oculto nenhum), prega a todos uma partida: a editora em questão, numa mudança de instalações, acaba por encontrar o manuscrito e pretende publicá-lo, 40 anos depois. Saramago recusou.

40 anos é também a diferença de idades entre dois personagens de «Claraboia», Silvestre e Abel, os quais protagonizam os mais interessantes diálogos da obra, ou não servisse o primeiro, sapateiro, de experiente mestre da vida do segundo, homem de 27 anos que recusa qualquer tipo de compromissos.

“- Esqueci-me de que há entre nós quarenta anos de diferença… Não me poderia entender…

– Também o Silvestre de há quarenta anos não o entenderia a si, meu amigo”.

«Claraboia» é a história de um prédio lisboeta, microcoscosmos composto por seis inquilinos que, entre si, estabelecem o enredo que dá corpo ao romance.

Neste obra de 1952, o narrador assume-se como uma espécie de porteiro deste prédio, conduzindo o leitor, em cada capítulo, a cada andar, onde os diferentes personagens vão vivendo as suas vidas.

Saramago, através do porteiro-narrador, resume sem rodeios a vida destes personagens: “uma vida de janelas sem horizonte”, altamente condicionada pelos tostões que diariamente contam para sobreviver.

A este nível, é espantoso o exercício profético do autor, conseguindo escrever um romance tão actual, com inúmeras referências à “crise internacional” e à indignação que causa “o desperdício que ia por esse mundo fora, quando milhões de pessoas sofrem fome e miséria”.

Fome e miséria que, conjuntamente, com a ignorância e medo são os sintomas que mostram “a baixeza da vida dos homens”.

Não obstante, e a demonstrar o carácter completo de «Claraboia», Saramago é exímio no transporte que nos ‘oferece’ à sociedade portuguesa de meio do século passado, em que o homem dominava a mulher e o pai dominava a filha.

A título de exemplo, o casal Emílio e Carmen, em que esta, para viajar para o seu país natal, Espanha, precisou do consentimento do marido (o que, tendo em conta a história, não foi nada difícil).

Ou então, a relação ódio-ódio entre o infiel Camilo, jornalista do Notícias, e a sua seca mulher Justina, que vai evoluindo em tensão ao longo de toda a estória e culmina de forma abrupta.

Há ainda outra mulher, vizinha dos seus vizinhos pois claro, Lídia, que é alvo de constantes mexericos, por ser amante de um homem de negócios rico e há também uma família inteira de mulheres sozinhas.

Trata-se de uma família bastante sui generis. Quatro mulheres (mãe, suas filhas e sua irmã) que partilham casa e alegrias, por entre a banda-sonora das suas vidas: a música clássica que todos os dias ouvem da telefonia.

Quem diria que entre estas se estabelece um diálogo filosófico arrebatado, quando discutem se «Scherzo» de Chopin é bonito ou belo: “Bonito? Bonito é uma cantiguinha qualquer. Isto é… é…”.

E por se falar de filosofia, dizia Arístoteles que o homem atinge a felicidade quando pode desenvolver e utilizar todas as suas faculdades e capacidades, sendo que uma das condições para tal é ‘o desejo e o prazer do corpo’.

Saramago pegou nesta deixa para revelar o crescimento de uma destas quatro mulheres, Isaura, cujo corpo vai despertando para o desejo à medida que prossegue na calorosa leitura de «A Religiosa», de Diderot.

A restante família que habita o prédio é comandanda por Anselmo, um perito não assumido das estatísticas do futebol, que comanda a vida das mulheres que habitam a sua casa: a mulher, Rosália, cujos dias são ocupados a fazer costura, e a filha, Maria Cláudia, que, por mais que trabalhe, nunca há-de ganhar o suficiente para satisfazer os seus pais.

«Claraboia» é um romance bastante completo e importante na monumental obra literária do Nobel português.

Se, por um lado, Saramago revela já o domínio da escrita, a capacidade criativa e a maturidade no desenvolvimento de personagens que se haveriam de confirmar em obras posteriores, por outro, o escritor nascido em Azinhaga do Ribatejo revela uma inocência e humor desarmantes.

“Enfim, é um livro também ingénuo mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser”, reflectiu o autor sobre «Claraboia».

Resta acrescentar a qualidade gráfica desenvolvida pela Caminho para a capa e o interior do livro: enquanto a primeira apresenta uma claraboia para um céu, no seu interior o leitor é surpreendido com uma imagem dos típicos prédios de Lisboa, com o mesmo céu (enorme) por trás.

Num momento em que se fala tanto em ebooks, poderá passa por estes pequenos pormenores a aposta das editoras para manterem as vendas de livros.

 

Pontuação final: 4

1 [a evitar] | 2 [fraco] | 3 [suficiente] | 4 [bom] | 5 [obra-prima]

 

Outros livros que passaram pela Mesinha de Cabeceira:

«Ultramarina» de Malcolm Lowry

«Os Buddenbrook» de Thomas Mann

«O Homem Duplicado» de José Saramago

«O Tigre Branco» de Aravind Adiga

«As 3 Vidas» de João Tordo

«Os Irmãos Tanner» de Robert Walser

«De Moscovo a Petuchki» de Venedikt Erofeev

«O Mundo» de Juan José Millás

«À Espera no Centeio» de J. D. Salinger

 

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