BD-Á-Bá: Entrevista com o ilustrador Manuel Alves

Entrevista originalmente publicada na Zona Negra 2, revista alternativa de BD e ilustração nacional do projecto ZONA.

 

Manuel Alves é um ilustrador natural de Braga, que não poucas vezes decide fazer uma incursão pelo mundo da banda desenhada e até da escrita.

É portanto um autor multifacetado que prima por um registo gráfico fotorealista e por um sentido de humor muito próprio, presente em muitos dos seus trabalhos.

Nos últimos anos, a sua colaboração com a Zona e com o fanzine Celacanto, uma publicação que ajuda a preservar espécies em vias de extinção, assim como uma presença activa nas redes sociais, tornaram mais visível o seu trabalho e conhecido o seu talento.

Assim, quisemos aproveitar o embalo para conhecê-lo melhor…

 

Para quem não te conhece, resume-nos o teu percurso artístico até aos dias de hoje.

Tudo começou há uns vinte anos, parece-me. Um dia, numa aula de Educação Visual, fez-se luz e voilà, eu sabia desenhar (história verdadeira). Não há recordações de tenra infância em que eu, antes de saber escrever, já gastava toneladas de lápis de cor a rabiscar tudo quanto era parede de casa.

É óbvio que gostava de desenhar. Mas, antes de realmente saber que podia fazê-lo razoavelmente melhor do que as outras pessoas em geral, a verdade é que, até esse dia de epifania, eu safava-me à pala do velho truque do papel químico e do decalque.

Depois do já referido  voilà, desenvolvi a capacidade do desenho pela melhor das razões: por gosto. Uns anos mais tarde, passei dos lápis aos pincéis e, há uns três ou quatro anos, agarrei-me definitivamente à caneta digital (certo, esta última parte não soou lá muito bem).

Nunca tive aulas de Arte, nem de nada remotamente artístico (as aulas que tive de Educação Visual não se qualificam para esse nível). Há cerca de doze anos que o passatempo se tornou numa actividade para ganhar alguns cobres.

Durante os primeiros anos, fiz somente arte tradicional para clientes privados (sobretudo retratos a lápis, pinturas a pastel, aguarela e acrílico). Depois de experimentar as ferramentas digitais, comecei também a fazer trabalhos editoriais e publicitários para clientes maiores.

De momento, caminho sobre a frágil corda que é a actividade do ilustrador, em Portugal. Para dar o primeiro passo é preciso loucura (uma loucura inconsciente, como todas as loucuras verdadeiras). Os restantes passos exigem uma constante necessidade de equilíbrio e sorte.

 

Notam-se influências da fotografia e da arte realista no teu trabalho. Quais as tuas principais fontes de inspiração?

Tudo é fonte de inspiração. A resposta é bastante aborrecida e falta-lhe a originalidade mística que se atribui à inspiração artística, mas a resposta é mesmo essa; tudo.

Não acredito que qualquer artista, seja qual for a sua área, tenha realmente uma resposta diferente. O artista que apontar apenas uma fonte de inspiração, mesmo que tenha capacidade para representar a única coisa que o inspira, não estará muito longe de uma versão limitada de algo que já existe.

Essa é precisamente uma das dificuldades da arte realista. Há a necessidade de captar a expressão da referência fotográfica e, ao mesmo tempo, a igual necessidade de criar o devido distanciamento artístico (há quem lhe chame interpretação) de maneira a que, no fim, não seja criada apenas uma cópia do que já existe, o que tornaria o trabalho aborrecido e, francamente, perto do inútil.

Há quem se pergunte: se é para reproduzir fielmente o que já existe, qual o objectivo, afinal? Se excluirmos o nobre ofício dos falsificadores, há aí uma certa pertinência.

A verdadeira habilidade não está em reproduzir apenas as referências, mas sim em juntar várias e conjugá-las num conceito que antes não existia individualmente em nenhuma delas (há mais explicações para a “verdadeira habilidade” mas eu não sou dado à omnisciência e fico-me pelo que disse).

 

Sabemos que gostas de desenvolver expressões artísticas diferentes. Em qual delas te sentes mais à vontade?

Para além do desenho/pintura, também escrevo. É, eu fui abençoado com duas das coisas que, neste país, muito provavelmente me levarão à miséria. Entre as imagens e as letras… bem, é o que costumam dizer quando tem de se escolher entre dois filhos; gosta-se dos dois da mesma maneira, mas um é o preferido. Neste caso, é a escrita.

Se, por alguma razão, eu tivesse de escolher, a minha escolha seria a escrita, sem pensar duas vezes. São duas formas de arte que se tocam. Há bastantes semelhanças que as aproximam como duas forças criativas que cruzam a ficção com a realidade.

Ainda assim, são expressões inteiramente distintas. Conhecendo ambas, não pretendo de modo algum compará-las. Para se poder comparar duas coisas, é preciso que essas duas coisas sejam maioritariamente iguais. Neste caso, não são.

Há várias razões para preferir a escrita. Quando pretendo transmitir uma ideia, a escrita compreende-me melhor do que o desenho. O resultado final das palavras aproxima-se mais vezes da minha ideia inicial do que as imagens.

Quem desenha sabe bem do que estou a falar. Não são assim tão poucas as vezes em que um desenho acaba por sair ao lado do que se queria. Além do mais, a escrita é, no geral, um meio de expressão mais completo (senão o mais completo).

Não estou, de maneira alguma, a dizer que um escritor é sempre melhor artista do que um pintor. Não estou a falar dos artistas, mas sim dos meios que os artistas usam para criar.

Eu sinto-me bastante à vontade em ambas as expressões artísticas, e consigo retirar de ambas aquilo que pretendo com relativa facilidade, mas, simplesmente, gosto mais da escrita.

 

Além da Zona, estás envolvido noutros projectos? Fala-nos um pouco disso.

De momento, estou a trabalhar num livro para gente grande (gigantes, e isso). Muitas páginas. Sem imagens (introduzir aqui o tal de lol). Está quase acabado.

Se conseguir que seja publicado, e as coisas correrem bem, talvez seja possível, num futuro bastante optimista, conjugar as imagens com as letras em outros projectos que tenho na gaveta (uma gaveta mística, e sem fundo, da qual os criadores  em geral estão sempre a falar).

Um desses projectos é uma banda desenhada com um conteúdo um bocado pesado, pois o tema centra-se na violência entre as crianças e, mais uma vez, será uma coisa para gente grande.

Também tenho feito alguma pesquisa no reino obscuro do folclore nacional, à procura de lendas e contos que possam ser ressuscitados no séc. XXI. Tudo depende do futuro optimista de que já falei, em que os milagres não sejam coisas absurdas (outra vez o tal de lol).

 

Como autor, quais são os teus objectivos? Até onde colocas a fasquia?

Como ilustrador, espero chegar a um ponto em que possa vender os meus trabalhos a coleccionadores por valores acima dos cem mil euros (um mínimo razoável). Se lutarem até à morte por um simples esboço meu também serve perfeitamente.

A fama não me interessa para nada. Ser justamente pago por aquilo que faço é uma bênção infinitamente maior do que ser apenas reconhecido (acreditem que é… se ainda estivesse vivo, o van Gogh diria o mesmo). Por outras palavras: quero é dinheiro.

Como escritor, espero que um dia (antes dos 50 anos) me seja atribuído o Nobel, para eu deixar cair o pisa-papéis na cerimónia de entrega e fingir que foi sem querer.

Portanto, tudo coisas perfeitamente possíveis. A fasquia está praticamente à altura do joelho.

 

Para saber mais acerca do trabalho da Manuel Alves, visite as seguintes páginas:

http://utopia-studio.blogspot.com/

http://odeusum.deviantart.com/

http://www.artflakes.com/en/shop/manuel-alves

 

André Oliveira

 

aproveite ainda para ler:

entrevista com António Valjean, autor e ilustrador de BD

IX edição dos Troféus Central Comics

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