Mesinha de Cabeceira: «Á Espera no Centeio» de J. D. Salinger

Mas afinal, quem é este gajo chamado Holden Caulfield?

 

Quando tinha 13/14 anos costumava ouvir os Green Day. Os norte-americanos, que faziam uma orelhuda mistura de música punk com pop, tinham uma atitude rebelde que, simultaneamente, recuperava algum do efervescente espírito dos últimos anos da década de 70, quando eclodiu aquele tipo de som.

A relação de Green Day com «Á Espera no Centeio», de J. D. Salinger, pode estar a passar ao lado de muitos, mas foi esta banda que, pela primeira vez, me deu uma imagem de Holden Caulfield.

Passo a explicar: no álbum Kerplunk, havia uma música chamada «Who Wrote Holden Caulfield?» e em que o vocalista dos Green Day, Billie Joe, falava de um rapaz preguiçoso, desmotivado e que desistia de tudo em que se metia.

Na letra, cantava-se: “There’s a boy who fogs his world and now he’s getting lazy; There’s no motivation and frustration makes him crazy; He makes a plan to take a stand but always ends up sitting; Someone help him up or he’s gonna end up quitting”.

Pois bem, se na altura esta introdução não foi suficiente para me pôr a ler «Á Espera no Centeio», quando agora li a obra-prima de Salinger percebi ainda mais o sentido desta letra.

Neste livro de 1951, somos confrontados com um personagem memóravel. Holden Caulfield que nos vai contando a sua estória, começa de forma directa, aquela que foi uma abordagem inovadora e revolucionária para as letras da época: logo na primeira frase, consegue demonstrar o enfado sobre a sua vida e, mais uma vez, o enfado que lhe causa ter de o dizer.

“Se estão mesmo interessados nisto, então a primeira coisa que devem saber é onde é que nasci, e como foi a porcaria da minha infância, o que faziam os meus pais e tudo antes de eu ter nascido, e toda essa treta estilo David Copperfield, mas não estou nada para aí virado”.

O leitor é masoquista. Só pode, porque esta espécie de estalo sabe bem e daí para a frente, como leitor, já nada o pode parar, num conjunto de episódios da vida que Holden Caulfield vai desenrolando de forma irónica, fria e próxima.

Este miúdo de 16 anos conta-nos porque foi expulso do colégio e, longe de se tentar defender, Caufield explica as obrigações absurdas dos colegas em que não se revê, os professores desinteressantes e a relação distante com a família, com excepção da sua irmã mais nova.

Caulfield, que não se identifica com os craques e meninos bonitos do colégio (que, na realidade, são burros, mal-cheirosos e feios), anda à luta com um dos colegas e decide então antecipar a sua expulsão, indo para Nova Iorque dias antes.

Com naturalidade, Caulfield vive novas aventuras na ‘grande maçã’ e, muitos dos outros personagens que conhece e se relaciona, são dissecados de forma crua aos olhos deste adolescente.

É engraçado como Salinger consegue criar um protagonista deste ‘calibre’, que reflecte sobre o que é ser jovem, mas também sobre o que é crescer e tornar-se num “cabrão para o resto da vida”.

As miúdas têm também um papel importante na vida dos adolescentes. E Caulfield sabe-o, conhecendo-as tão bem que a grande maioria delas tornam-se aborrecidas logo depois de falar um pouco com elas.

E o que vai acontecer a todas estas miúdas com pernas incríveis, com pernas foleiras, com ar de miúdas bestiais, com ar de serem umas cabras? Caulfield já sabe a resposta e é lacónico: “Imagina-se que a maior parte delas haveriam de casar com algum cretino”.

Aqueles mesmos cretinos que foram seus colegas e que um dia vão crescer, tornar-se “cabrões para o resto da vida”, e cujos interesses “dão vómitos”: “estão sempre a contar quantos quilómetros fazem com um litro na merda dos carros deles. Tipos que ficam fulos e birrentos como o raio quando os batem no golfe, ou até num qualquer jogo estúpido como o pingue-pongue. Tipos bestialmente mesquinhos. Tipos que nunca lêem um livro”. Esta última caracterização, já diz muita coisa sobre estes tipos

Ao longo de «Á Espera no Centeio», Caulfield vai acusando tudo e todos, num role de situações que nos colocam um sorriso na cara.

É quando surge outro personagem, Luce, um ex-colega de Caulfield, que fica apresentada toda a temática do livro, o crescimento. A primeira pergunta que Luce faz a Caufield resume este facto: “Quando é que cresces?”.

E é o crescimento a base de todos nós. Crescemos, conhecemos e tomamos opções de vida. Uns mantêm-se jovens, outros tornam-se cretinos e outros não deixam de ouvir Green Day.

 

Pontuação final: 5

1 [a evitar] | 2 [fraco] | 3 [suficiente] | 4 [bom] | 5 [obra-prima]

 

outros livros que passaram pela Mesinha de Cabeceira:

«Ultramarina» de Malcolm Lowry

«Os Buddenbrook» de Thomas Mann

«O Homem Duplicado» de José Saramago

«O Tigre Branco» de Aravind Adiga

«As 3 Vidas» de João Tordo

«Os Irmãos Tanner» de Robert Walser

«De Moscovo a Petuchki» de Venedikt Erofeev

«O Mundo» de Juan José Millás

 

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