Mesinha de Cabeceira: «O Mundo» de Juan José Millás

Um mundo opaco e limitado

 

Juan José Millás é um autor agraciado já com uma dezena de prémios, tendo com «O Mundo» vencido dois importantes galardões em Espanha: o Prémio Planeta (2007), atribuído por esta editora à melhor obra inédita que lançou; e o Prémio Nacional de Narrativa (2008), atribuído pelo Ministério da Cultura de Espanha e que premeia o melhor romance escrito por um autor espanhol.

Ora, se o primeiro prémio até se compreende que tenha sido atribuído a Millás, o segundo levanta algumas preocupações relativamente às obras literárias que são escritas por ‘nuestros hermanos’.

«O Mundo» tem um início auspicioso: o narrador e principal personagem da obra, Juan José, apresenta-nos o seu pai, uma figura bastante peculiar, que tem uma oficina de aparelhos eléctricos de medicina e se intitula como a primeira pessoa a fabricar um bisturi eléctrico em Espanha, “embora provavelmente tenha tirado a ideia de uma publicação estrangeira”, rebaixa o filho.

Juan José recorda de seguida quando almoçava com o pai no Kentucky Fried Chicken, naquela que é uma das passagens mais interessantes da estória: “durante aquelas refeições falava-me frequentemente dos benefícios do choque eléctrico e contava-me as suas primeiras experiências com o aparelho”.

O romance prossegue com uma descrição da casa em que a numerosa família de Juan José vivia em Madrid, que, por se encontrar em tão más condições, deixava entrar um “frio constante e cortante”.

Pelo meio, Millás já começa a dar uns ares da sua graça que, se a príncipio se estranha, com o decorrer da leitura perde toda a piada, não só pela discutível veia criativa, como pela duvidosa objectividade do discurso.

É disso exemplo quando o autor espanhol, já depois de nos ter introduzido ao tal frio que “fazia parte da atmosfera, da vida”, tem uma daquelas frases ocas que, infelizmente, causam ao leitor um certo frio na espinha: “calculo que deve ser duríssimo provir de um embrião congelado”.

E se, inicialmente, Juan José personagem coloca em causa o facto de o seu pai ter sido a primeira pessoa a fabricar um bisturi eléctrico em Espanha, Juan José escritor tem a infeliz coincidência de recuperar a imagem do “sofá das orelhas” de Thomas Bernhard.

De facto, em «O Mundo», Millás refere-se pelo menos por duas vezes ao tal “sofá das orelhas” que Bernhard quase transformara em personagem em «Derrubar as Árvores – Uma Irritação», com a “poltrona das orelhas” em que se sentava todos os dias, na casa dos Auersberger.

Fatalmente, nesta obra auto-biográfica, Millás prossegue a atropelar o leitor com o seu discurso tosco, sendo disso exemplo a quantidade de vezes que se assume como hipocondríaco e deprimido, mas raras vezes o demonstra através de situações do seu dia-a-dia.

Nem tudo é mau em «O Mundo». Até ao final da obra, Millás explica como surgiram ideias para os seus romances e o leitor recupera alguma paciência. A título de exemplo, a estória que o autor leu na revista Selecções do Reader´s Digest e que depois ‘adaptou’ para «Dus Mujeres en Praga».

No que toca à sua forma de escrever, Millás consegue a proeza de criar identificação com o leitor, mas pelos piores motivos. Às páginas tantas, é da seguinte forma que o autor descreve como desempenha a sua actividade: “escrevo depressa, escrevo como fujo, com a cabeça agachada e uma expressão de sofrimento infinito no rosto”.

E é com uma expressão de sofrimento infinito no rosto que se acaba «O Mundo», não pelo facto de finalmente se pôr fim à leitura, mas por um dia a ter começado.

 

Pontuação final: 2

1 [a evitar] | 2 [fraco] | 3 [suficiente] | 4 [bom] | 5 [obra-prima]

 

Outros livros que passaram pela mesinha de cabeceira:

«Ultramarina» de Malcolm Lowry

«Os Buddenbrook» de Thomas Mann

«O Homem Duplicado» de José Saramago

«O Tigre Branco» de Aravind Adiga

«As 3 Vidas» de João Tordo

«Os Irmãos Tanner» de Robert Walser

«De Moscovo a Petuchki» de Venedikt Erofeev

 

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