Reportagem: Um dia no Espaço de Maria Gabriela Llansol

A realização das terceiras Jornadas Llansolianas, que ocorrem este fim-de-semana, em Sintra, são mais do que motivo para visitar o Espaço Llansol, uma associação que se dedica ao estudo da obra literária de Maria Gabriela Llansol. A Ave Rara visitou o espaço e dá-lhe a conhecer a casa de uma das mais importantes e singulares escritoras portuguesas.

 

  

O Espaço Llansol dedica-se a tratar, classificar e divulgar o espólio da escritora Maria Gabriela Llansol. Situa-se em Sintra, na morada mais apropriada para o bom desempenho do seu papel: naquela que foi a última casa da escritora nascida em Lisboa, a 24 de Novembro de 1931.

É João Barrento, um dos fundadores do Espaço Llansol, quem nos recebe à porta e nos introduz ao mundo de Maria Gabriela Llansol: “esta foi a última casa onde a escritora viveu. Antes habitou uma outra, em Colares, mas foi aqui que passou os seus últimos dias”.

 

A MARIA GABRIELA [LLANSOL] ESCREVIA EM QUALQUER SÍTIO. TINHA UMA IDEIA E PASSAVA-A LOGO PARA QUALQUER TIPO DE PAPEL

 

A casa é, literalmente, uma casa. Com cozinha, casa-de-banho, dois quartos e uma sala. “O nosso escritório fica onde era antigamente o quarto da Maria Gabriela”, adianta João Barrento. “Costumamos receber investigadores da obra da Maria Gabriela que trabalham aqui, nomeadamente investigando o espólio e os manuscritos”.

O Espaço Llansol é gerido pela Associação de Estudos Llansolianos e surgiu em 2008, quando João Barrento e Maria Etelvina Santos foram incubidos pela autora de «Onde Vais, Drama-Poesia?» de tratar o seu espólio.

Sábados inteiros

“A nossa ligação com a Maria Gabriela deu-se no meio académico. Eu era professor na Universidade Nova e orientei uma tese relacionada com a sua obra. Posteriormente, comecei a organizar uns seminários nos mestrados em que se abordava a literatura da Maria Gabriela. Um dia, com a minha colega Maria Etelvina, que fez uma tese de doutoramento sobre a autora, decidimos dedicar-nos mais à Maria Gabriela e começámos a fazer parte do grupo de trabalho que se encontrava com ela para discutir a sua obra”.

Estes encontros, onde marcavam presença estudiosos, leitores e amigos de Llansol, duravam, segundo João Barrento, “um sábado inteiro e a Maria Gabriela era presença assídua. No início não falava muito, deixáva-nos discutir, depois começou a participar mais e, a partir de um certo momento, começou a dizer coisas muito importantes sobre a sua obra”.

 

PODE PEGAR-SE NUM LIVRO DA MARIA GABRIELA E LER UMA PÁGINA OU DUAS, CONVIVER COM A SUA OBRA A VIDA INTEIRA, VOLTAR A LER E SENTIR ALGO COMPLETAMENTE NOVO

 

O material que resultava das intervenções da autora acabou por servir de corpo aos «Cadernos Llansolianos», um conjunto de 13 livros que o grupo de estudiosos editou e que ainda pode ser adquirido.

Llansol entretanto falece a 3 de Março de 2008. Um dos seus últimos desejos foi então revelado: a escritora deixou escrito o interesse de que João Barrento e Maria Etelvina Santos ficassem a cuidar o seu espólio literário. “Foi uma enorme surpresa e, obviamente, uma grande responsabilidade”, recorda Barrento.

Arrumar a casa

Contudo, a hercúlea tarefa não assustou estas duas pessoas que têm dedicado muitos dias ao Espaço Llansol. De mangas arregaçadas e sorriso nos lábios, Barrento introduz: “em três anos já fizemos muita coisa, ao nível de divulgação, estudo e lançamento de cadernos”.

 

 

 

Os primeiro dias foram passados a arrumar a casa, nomeadamente a “separar os livros dos cadernos manuscritos, os diários da restante correspondência, os papéis avulso das muitas fotografias”.

Neste momento, muito do trabalho desenvolvido está à vista dos visitantes do Espaço Llansol: “tudo o que é manuscrito encontra-se digitalizado e plenamente consultável. E na Biblioteca (na antiga sala da escritora), tudo se encontra arrumado, classificado e catalogado”.

Centenas de livros

A Biblioteca é, de facto, um dos locais mais impressionantes e acolhedores da casa. Com estantes, sofás e computadores a que se pode aceder para pesquisar a obra da autora, neste espaço o destaque recai nos muitos livros em língua francesa.

“A Maria Gabriela lia muito em francês, porque ela viveu 20 anos na Bélgica. Os autores que não eram portugueses, a Maria Gabriela leu-os todos em francês”. E nas imensas estantes, Místicos encontram-se ao lado de Flamengos, sendo claro o destaque de obras de Espinoza, “um filósofo que ela gostava muito de ler”, São João da Cruz, Friedrich Hölderlin, Robert Musil “e também dos russos, como Dostoievski e Bulgakov”.

No que toca a autores portugueses, os gostos de Maria Gabriela iam de Vergílio Ferreira, “de quem ela era amiga”, a Fernando Pessoa. “Não se encontram aqui livros deles, mas sabemos que ela gostava porque, ao longo da sua obra, a Maria Gabriela refere, por ter lido na biblioteca do pai”.

Indispensável despensa

Outra divisão importante do Espaço Llansol encontra-se logo ao lado da Biblioteca, “esta pequena sala que antigamente era uma despensa”, indica Barrento já no seu interior.

Trata-se de uma sala pequena, efectivamente, mas com um espólio de valor incalculável. “Encontra-se aqui toda a obra dela: escrita, manuscrita e dactilografada. Há muita coisa inédita. Temos muita coisa a verificar, sobretudo ao nível dos diários”.

 

UMA VEZ ORGANIZADO TODO O ESPÓLIO, COMEÇARÁ ENTÃO A PARTE MAIS INTERESSANTE: MERGULHAR NA OBRA

 

Diários mas não só. Aqui também se podem encontrar cadernos manuscritos, correspondência literária, um arquivo fotográfico com mais de duas mil fotografias, o arquivo de imprensa e material escrito na juventude.

“Só os cadernos manuscritos são 76 ao todo, tendo sido escritos desde os primeiros anos da década de 70 do século passado. Desde a fase da Bélgica, portanto”. Convém sublinhar que a Assírio e Alvim já publicou dois volumes com este material inédito, os chamados «Livros de Horas».

 

Trabalho inédito

“Há ainda uma segunda série de cadernos que fomos encontrando pela casa e que não está numerada, são 78. A diferença é que são cadernos muito irregulares, são pequenos cadernos, cadernos de bolso, agendas, muitos deles com poucas páginas escritas, mas que têm material: ideias, anotações; contas; contactos; desenhos.” Tudo isto encontra-se digitalizado e é consultável no Espaço Llansol.

Existem também 33 dossiers com material escrito por Llansol na máquina de escrever. “A Maria Gabriela passava muitas vezes do caderno para a máquina. Este material acabava por evoluir: aquilo que começava de uma forma no caderno, era reajustado, aumentado ou cortado na versão final”, sublinha João Barrento.

 

O ARQUIVO DE IMPRENSA ENCONTRA-SE ORGANIZADO EM QUADROS ANUAIS E SERÁ DIGITALIZADO PARA PODER SER FACILMENTE ACEDIDO POR TODOS

 

Mas o material literário não se esgota no referido atrás. De acordo com Barrento “quando a Maria Gabriela edita o primeiro livro de contos, «Os Pregos na Erva», em 1962, já tinha muita coisa escrita, o chamado ‘trabalho de juventude’, desenvolvido até aos 20 anos de idade”. Estas verdadeiras relíquias nunca foram editadas e encontram-se disponíveis no Espaço Llansol.

Conforme adianta o nosso cicerone, “ainda há muito material inédito que poderá vir a originar novos livros”, sendo que, de momento, o trabalho que se está a realizar corresponde a estudar e avaliar o que poderá ser editado.

Os objectos de Llansol

Na prática, uma tarefa de meses pela frente e que deverá ser abordada nas próximas Jornadas Llansolianas que decorrem este fim-de-semana, 24 e 25 de Setembro, no Palácio Valenças, no Arquivo Histórico de Sintra (em frente ao Museu do Brinquedo).

Na sua terceira edição, as Jornadas Llansolianas deste ano dedicam-se ao “fascinante universo dos objectos, desde sempre uma referência maior nos livros e na vida da escritora”.

 

CONTINUAM A CHEGAR ALGUMAS CARTAS PARA A MARIA GABRIELA. POR EXEMPLO, TEMOS AQUI UMA DA SUA AMIGA HÉLIA CORREIA, QUE TAMBÉM FAZ PARTE DO ESPAÇO LLANSOL

 

Em declarações ao portal Ave Rara, João Barrento é peremptório: “a Maria Gabriela vivia muito rodeada de objectos. Por exemplo, no espaço que era o seu escritório de casa, que, actualmente, não está muito mudado, há todo um conjunto de objectos que apareceram, transformados ou não, nos próprios livros”.

 

 

 

“Por exemplo, aquele cão de loiça, aquelas bonecas, os cavalinhos transparentes, a leiteira, o homem da bigorna, a estátua de leitura, ‘onde Ana está ensinando a ler a Myriam’…”, dispara certeiro Barrento.

No decorrer dos dois dias das jornadas, estes e outros objectos serão mostrados e comentados, com textos, filmes, uma performance e leitura cantada, “respondendo uma vez mais ao apelo das coisas que pedem esplendor, dando a ver a luminosa vida dos objectos no texto e no mundo de Maria Gabriela Llansol”.

“Os objectos escavam o espaço e ocupam nele um lugar (…) Vistos assim, são o mundo físico da inteligência atravessando a luz.” , escreveu Maria Gabriela Llansol em «O Raio sobre o Lápis».

 

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