Monsieur Hulot
Monsieur Hulot é a nova área do portal Ave Rara dedicada à sétima arte e é desenvolvida por Miguel Peres. Atenção, M. Hulot não é um pseudónimo de Miguel Peres.
Argumentista, realizador e editor de vídeo, Miguel Peres trabalha actualmente como editor de vídeo na EDP e tem na sua inicial carreira cinematográfica uma curta-metragem com algumas presenças em festivais de relevo nacional. M.Hulot traz as notícias, entrevistas e críticas do que se anda a fazer actualmente no panorama do cinema português.
Crítica ao filme «Setúbal, uma galinha que não canta»
“Era uma cidade muito alegre”. Quem o diz é Manel Bola, reputado ator nascido em Setúbal e que tem feito muito pela cultura desta cidade. A frase resume a situação a que a cidade chegou: antes próspera em todos os sentidos, hoje quase que passa por cidade-fantasma.
Este saudosismo e melancolia são replicados por toda a curta-metragem, sempre com a comparação entre o passado e o presente. Bem editada, a música dá o ritmo e tom certo nos vários momentos do filme, a música transmite uma carga ainda maior para quem, como eu, nasceu e viveu lá.
A curta-metragem está bem realizada e os realizadores conseguem retratar os aspetos positivos e negativos da cidade (não fosse também eles, António Aleixo e Fábio Vicente, de Setúbal), mas sempre sem ser destrutivo.
O projeto transparece uma parcialidade dos realizadores, mas estes também a assumem: é o retrato de Setúbal pelo olhar de 2 jovens com esperança que a sua visão chegue a outros e consiga mostrar que Setúbal tem o seu potencial, em todos os sentidos, mas sobretudo na parte cultural.
Nas imagens, António Aleixo e Fábio Vicente são crus e mostram tudo, mas mostram com uma angústia total, com uma câmara tremida pois a angústia dos realizadores passa para ela. Estes conseguem ainda mostrar preciosas imagens de arquivo, que enriquecem toda a narrativa da curta-metragem.
A narrativa é apoiada por diversas personalidades de Setúbal, mas é aí que reside a falha do filme: os depoimentos são poucos. A variedade de opiniões é escassa e todos apontam para o mesmo.
Falta “vox pop”, falta a voz do povo da cidade, do “charroco” (como Manel Bola refere já depois da ficha técnica) típico de Setúbal, uma marca só nossa, sem dúvida. E os realizadores acabam por mostrar mais a decadência do que a parte boa, renovada da cidade.
Ainda assim, a curta-metragem acaba por ser um bom documento e um retrato eficaz e lúcido sobre a cidade. Sem dúvida uma visão que devia ser replicada por cada cidade do país.
E para quem pergunte a razão pela escolha do título, eis que Manel Bola a dada altura diz: “Uma galinha quando põe um ovo, canta. Setúbal põe um ovo e não canta”.
Se analisarmos esta analogia, encontramos o cerne da questão: Setúbal tem potencial, a cidade tem cultura, tem as condições necessárias para vingar e para ser um dos pólos atrativos do país, mas não consegue chamar para si os turistas, não consegue extrapolar e impor-se nacional e internacionalmente.
É um ser amorfo que, desde há já muitos anos, vê os seus jovens a migrar para outras cidades, para outros países, caindo no esquecimento e na nostalgia.
Para quem quiser, a Low Cost Filmes (a produtora do filme) disponibilizou recentemente a curta-metragem no seu total neste link.
Miguel Peres
aproveite ainda para ler:
Monsieur Hulot, apresentação da nova secção de Cinema do portal Ave Rara
Crítica ao filme «Efeitos Secundários» de Paulo Rebelo
Comments
One Response to “Monsieur Hulot”Trackbacks
Check out what others are saying...[...] HomeDestaquesEntrevistasFeira do Livro Lisboareportagenssobre [...]