Monsieur Hulot: Cinema Português perde espectadores em 2011
Trailer de «Sangue do Meu Sangue», de João Canijo
A eterna questão: o cinema português perde espectadores em 2011. A notícia é curta e com pouca repercussão nos meios de comunicação social, mas tem consequências na nossa produção nacional.
Do meu ponto de vista, esta questão tem 3 vértices vitais para a sua compreensão: o público, a produção nacional e os críticos de cinema. Quando olhamos para o box office anual, dos 30 filmes mais vistos, nenhum é português. Nem sequer entram nesta tabela. Quem aparece em primeiro lugar é “Harry Potter e os Talismãs da Morte – Parte 2”, com 493.436 mil espectadores, em segundo “Os Piratas das Caraíbas: Por Estranhas Marés” com 476.881 mil espectadores e em terceiro “Os Smurfs” com 475.339 mil espectadores.
A lista continua, mas analisemos os 3 primeiros: todos filmes em que pais e filhos podem ver. É aliás, esta a aposta da indústria norte-americana, de forma a ser mais rentável. Portanto, em rápida análise, vemos que os filmes mais vistos em 2011 têm esta componente e é isso que, na generalidade, o público português gosta.
Analisando a box office do cinema português, o primeiro filme com mais espectadores é, com 17.168, “Sangue do Meu Sangue”. A disparidade é absolutamente brutal e os números não enganam.
Pode-se argumentar que o cinema português não tem uma máquina publicitária por trás como os filmes norte-americanos têm nem que têm o dinheiro para produzir filmes como “Harry Potter”.
continuamente os críticos portugueses encontram sempre algo fantástico nos filmes de produção nacional, mesmo que isso muitas vezes não corresponde à verdade
Poderíamos acrescentar também que as próprias distribuidoras portuguesas não ajudam à divulgação dos filmes portugueses. É um facto, mas ainda assim temos exemplos de filmes de baixo orçamento de outros países que conseguiram chegar longe e atrair audiência (como por exemplo “Rec”, em Espanha).
Os números vão descendo, sendo que em segundo encontra-se “Complexo Universo Paralelo” com 17.102 espectadores (e este filme nem sequer foi realizado em Portugal, mas sim no Brasil) e em terceiro “A Cidade dos Mortos” com 6.866 espectadores. Este último, realizado por um brasileiro, Sérgio Tréfaut, e rodado em Portugal, Espanha e Egipto.
Juntemos agora estes dados com o top dos críticos portugueses: existem muitos tops, escolhi analisar o do Jornal Público. No top dos críticos encontram, em primeiro, “Cisne” e seguidamente “Sangue do Meu Sangue”, “O Estranho Caso de Angélica” e “Habemus Papam”.
Três filmes portugueses e um italiano. Quando juntamos os dados todos, percebemos aqui a contínua diferença entre público e crítica cinematográfica. É certo que a visão dos críticos poderá ser diferente da generalidade do público que vai ao cinema, pois possuem outra visão mais técnica e aprofundada que o normal espectador de pipoca.
Ainda assim, é estranho que os três filmes escolhidos tenham tido tão poucos espectadores. Ou então não é tão estranho assim: continuamente os críticos portugueses encontram sempre algo fantástico nos filmes de produção nacional, mesmo que isso muitas vezes não corresponde à verdade.
o dinheiro recebido do ICA (dinheiro estatal) é gasto sem ter a preocupação de ter retorno na bilheteira
Como é isso possível? O que é que os críticos portugueses vêm que o público não vê? A resposta é, por exemplo, esta dada por Jorge Mourinha em relação ao filme “Cisne”: “O novo filme de Teresa Villaverde é um encontro magnífico entre uma realizadora e uma actriz em perfeita sintonia, ancorando um filme que sugere uma inflexão no rumo do seu cinema”.
A audiência não quer isto. Este é um ciclo vicioso difícil de quebrar e não sei bem a sua origem, mas penso que começa na mentalidade da própria indústria portuguesa. O dinheiro recebido do ICA (dinheiro estatal) é gasto sem ter a preocupação de ter retorno na bilheteira. Ou seja, à partida não interessa se é rentável.
Logo a escolha dos projetos também não tem esse fator. Continua-se a fomentar a realização de filmes para os amigos dos realizadores verem, já que são os únicos que compreendem a “angústia” e “sofrimento” do realizador. E para serem compreendidos em festivais de cinema estrangeiros.
Não existe a preocupação de fazer um filme que o público goste. E o argumento de que os portugueses não têm educação, formação ou conhecimento para perceber os seus filmes já não passa.
é preciso mudar a mentalidade de quem faz filmes em Portugal
A culpa não é do público, mas sim de quem faz filmes. Esta autovitimização continua com os próprios a dizerem-se vítimas das distribuidoras portuguesas que não estreiam os seus filmes.
Esquecem-se que o negócio das distribuidoras é fazer dinheiro. Não vão estrear filmes que, à partida, sabem que não vão ser rentáveis. Como há uns dias João Farinha disse, a primeira preocupação de produzir um filme deve ser a rentabilidade do mesmo.
O cinema é uma indústria, não um veículo para as angústias dos “artistas” portugueses. E enquanto não se perceber isso, o cinema português não mudará e continuará a perder espectadores. O paradigma tem de mudar, o ICA tem de impor como um dos fatores importantes, a rentabilidade do projeto.
Porque é que não se aposta em argumentos mainstream? Não existirá nenhum projeto, nenhum argumento em Portugal que se foque em ação, em ficção científica, em terror? Pode-se fazer muito com pouco dinheiro.
Finalmente, é antiga a citação, mas ainda hoje se aplica: “Eu quero é que o público português se foda” (João César Monteiro). Mais que preocupação com prémios ou formações de Academias cinematográficas portuguesas, é preciso mudar a mentalidade de quem faz filmes em Portugal.
Miguel Peres
aproveite ainda para ler:
Monsieur Hulot, apresentação da nova secção de Cinema do portal Ave Rara
Crítica ao filme «Efeitos Secundários» de Paulo Rebelo
Você com este tipo de opinião nem devia usr o nome do magnifico Sr. Hulot, um verdadeiro paradigma da liberdade do Autor . Só a Galiza faz mais filmes do que Portugal e não nem um cineastacom o calibre de um Pedro Costa ou um Oliveira ou um Canijo, que mal ou bem só existem graças ao Ica.
Aliás só apostando em muitos autores é que se conseguem bons cineastas e não em produtos descartáveis como o “Rec” etc.
Aliás já vimos os belos descalabros q deram os argumentos mainstream que tanto defende como “Second Life” , ” A bela e o paparazzo ” etc , isso sim muito dinheiro deitado á rua.
Qualquer filme do João Cesar Monteiro será superior um milhão de vezes a essa enormidades , até um filme a negro.
http://www.timeout.com/london/feature/2081/the-top-50-dvds-of-2011-the-full-list
mais uma lista com um tuga em 2º lugar…
O cinema português – o seu Instituto – ao contrário do que é repetido vezes sem conta, é (ou era) financiado por uma taxa (3,2%) sobre a publicidade na televisão, e não pelo Orçamento de Estado.