Monsieur Hulot: Crítica ao filme «Efeitos Secundários» de Paulo Rebelo
Trailer do filme de Paulo Rebelo
Hoje apresento-vos a última estreia de um filme português no ano de 2011: “Efeitos Secundários”, de Paulo Rebelo.
Desde 2009 que esta longa-metragem estava à espera de estrear em Portugal: um exemplo do contínuo apoio das salas e distribuidoras portuguesas no que toca à 7ª arte. Felizmente, o Teatro do Bairro concedeu essa oportunidade.
“Efeitos Secundários” passa-se numa Costa da Caparica claustrofóbica, preconceituosa e incaracterística.
Longe está a ideia do Verão e das suas praias cheias de gente: aqui, nesta cidade-dormitório, encontramos 3 personagens: Laura (Maria João Martins), uma cabeleireira de 45 anos, viúva, que vive no passado; Carmo (Rita Martins), uma jovem seropositiva que está em constante confronto com o seu passado traumatizante e é incapaz de amar; e Rui (Nuno Lopes), um jovem pescador, estereótipo do homem à antiga que pensa que a mulher tem de ficar em casa.
Cada um, à sua maneira, procura o caminho para a felicidade: seja Laura que se sente sozinha e encontra a solução em Rui e ele encontra o amor e segurança que precisa em Laura.
Já Carmo, elemento destabilizador da relação, procura aquilo que não consegue ter: paz de espírito, apagar o passado traumático com a família e procurar uma liberdade que a doença lhe tira.
O filme reflecte sobre o facto de, cada decisão que tomamos na vida tem efeitos secundários, seja para quem nos é próximo ou para o desconhecido.
Cada personagem é egoísta na sua procura e o trio de actores espelha bem essa angústia e procura da felicidade inalcancável. Maria João Martins consegue, com naturalidade, ser a âncora de todas as outras personagens; Rita Martins é uma revelação, conseguindo oscilar entre a momentânea felicidade e a brutal angústia e raiva com a sua situação; Nuno Lopes consegue interpretar bem o humilde pescador, embora por vezes caia um pouco no ridículo do estereótipo da personagem, com algumas situações cómicas.
O realizador mostra segurança na forma como filma e escolhe os seus planos. No entanto, o ritmo do filme obedece, infelizmente, à regra geral do cinema português: é lento.
Paulo Rebelo prefere jogar pelo seguro e não arrisca numa montagem dinâmica nem em movimentos de câmara ou mudanças de plano que dariam outra carga ao filme.
Também o actor Nuno Gil (faz de namorado da Carmo), um jovem com potencial, tem aqui um papel secundário em cenas de sexo por vezes metidas um pouco a martelo e inexplicáveis no século em que vivemos.
De um modo geral, o filme está equilibrado, mas sai-se com a sensação de que falta algo: esse algo que nos leva a discutir o filme até chegarmos a casa. O argumento não levanta questões e deixa tudo resolvido com clichés um pouco óbvios como o urso de peluche ser uma metáfora de Carmo.
Ainda assim, é uma boa oportunidade para apoiar o cinema português e ver um trio de actores dos melhores no panorama nacional.
O filme está em exibição no Teatro do Bairro de dia 14 a 30 de Dezembro. Mais informações em:
http://www.teatrodobairro.org/
http://www.crim-productions.com/fiction/efeitos-secund%C3%A1rios/
Miguel Peres
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