Entrevista: “O Didgeridoo feito por rolo de papel é um concorrente sério dos restantes materiais”
Rodrigo Viterbo, 30 anos, nasceu e cresceu no Porto, é construtor, músico e professor de Didgeridoo. Na semana em que se realiza a 9ª edição do Festival Didgeridoo (entre 1 e 3 de Setembro, em Ameixial, Loulé, no Algarve), o portal Ave Rara tem o prazer de dar a conhecer o inventor mundial de Didgeridoos feitos a partir de rolo de papel.
Descreves-te como um construtor, músico, professor e entusiasta de Didgeridoo. Como começou este teu fascínio por um instrumento cuja história remonta à dos aborígenes australianos?
No Porto 2001 assisti a um espetáculo de novo circo em que um dos palhaços, no caso interpretado pelo Osga dos Mu, tocava vários instrumentos sendo que um deles era o didgeridoo, fiquei logo encantado com o som do instrumento.
Como construtor, quais os principais desafios que se te colocam na construção deste instrumento?
A afinação, a qualidade de som e de construção são os fatores principais num instrumento musical, é nesse sentido que eu direciono o meu trabalho. Há muita informação dispersa e autodidata sobre construção de didgeridoos mas muita coisa tem ainda de ser testada.
Quanto tempo se leva, em média, a construir um Didgeridoo?
Por causa das colagens e acabamentos não se consegue fazer um didgeridoo em apenas um dia mas habitualmente entre três a cinco dias é o tempo normal de construção de um instrumento.
A IDEIA DE CONSTRUIR DIDGERIDOOS A PARTIR DE ROLOS DE PAPEL HIGIÉNICO SURGIU NUM MOMENTO EM QUE DEIXEI DE TER CONDIÇÕES PARA MANTER A OFICINA DE CONSTRUÇÃO
Quanto custa comprar um Didgeridoo?
O preço de um didgeridoo depende do material em que é feito, da complexidade da sua construção, da gama em que se situa. Um didgeridoo de base de gama custará até cerca de 75 euros, entre os 100 e os 400 euros já se compram instrumentos de qualidade média que permitem uma boa evolução na aprendizagem, instrumentos tradicionais ou mais especiais podem chegar aos 1000 ou 1500 euros.
Pode dizer-se que foste o primeiro criador de Didgeridoo feito a partir de rolos de papel?
Sim, tanto quanto sei fui a primeira pessoa a usar os rolos de papel higiénico como base de construção para didgeridoos, já havia experiências com tubos de cartão e com papier maché mas não desta forma e com esta complexidade.
Como te surgiu esta ideia e quais as características deste tipo de Didgeridoo?
Como a maior parte das boas ideias esta surgiu em tempos difíceis, num momento em que deixei de ter condições para manter a oficina de construção de didgeridoos, onde fazia didgeridoos de madeira, vi-me obrigado a procurar uma forma de construção alternativa que me permitisse controlar a forma do instrumento, dar-lhe uma boa estrutura e em que não precisasse de recorrer a técnicas oficinais. O trabalho com papel permite tudo isto e quando é bem executado é um concorrente sério dos restantes materiais.
COMEÇAM A SER PROVADOS OS BENEFÍCIOS DE TOCAR DIDGERIDOO PARA PESSOAS QUE SOFREM DE APNEIA DO SONO, GAGUEZ E OUTRAS PERTURBAÇÕES
São melhores ou piores que os instrumentos feitos de madeira?
Há uma artesã em Inglaterra a construir harpas de cartão, o importante no didgeridoo é a sua forma e a qualidade de construção. Dito isto é fácil de perceber que não há materiais melhores ou piores. O meu didgeridoo preferido é de papel e no DIDGeVENT, festival de didgeridoo em Berlim onde estive este ano, foi muito elogiado por vários músicos profissionais de didgeridoo.
Com que outros materiais ‘alternativos’ pensas construir Didgeridoos?
Estamos neste momento a fazer história com o didgeridoo. Só há poucas dezenas de anos é que este instrumento se popularizou fora da Austrália: enquanto que as guitarras, pianos, violinos e os restantes instrumentos mais conhecidos são hoje o resultado de centenas de anos de desenvolvimento, o didgeridoo está neste momento a dar os primeiros passos no desenvolvimento enquanto instrumento musical devidamente afinado e com técnicas sofisticadas de construção. Mais do que experimentar materiais alternativos interessa-me trabalhar estas questões mas admito que tenho curiosidade em trabalhar com a cortiça.
Organizas workshops e dás aulas a quem queira aprender a tocar este instrumento. Como correm as aulas? Quais são normalmente as expectativas das pessoas que te procuram?
O didgeridoo é um mero ressoador daquilo que fazemos com o sistema diafragma-laringe-cordas vocais-palato mole-língua-maxilar-bochechas-lábios. Através de movimentos específicos de cada um destes órgãos produzem-se diferentes sons no didgeridoo. Nas aulas ensino aos meus alunos as técnicas básicas para tocar didgeridoo: a nota fundamental, a modelação dos harmónicos, os vocalizos e as notas tipo trompete. Há uma primeira fase de procura e aperfeiçoamento destas técnicas e numa segunda fase ensino as diferentes formas de respiração circular, técnica que consiste em inspirar ao mesmo tempo que se mantém o som do didgeridoo. Por fim há uma integração das possibilidades do didgeridoo na individualidade de cada aluno. Por todo o trabalho de respiração e até relaxamento do didgeridoo sou procurado por pessoas de todas as áreas como músicos, professores, curiosos, crianças, pessoas que querem usar o didgeridoo como um complemento para a terapia da fala que já fazem e pessoas com problemas respiratórios, começam a ser provados os benefícios de tocar didgeridoo para pessoas que sofrem de apneia do sono, gaguez e outras perturbações.
NA 9ª EDIÇÃO DO FESTIVAL DIDGERIDOO OS NOMES INTERNACIONAIS SÃO FORTÍSSIMOS: RAMM CONTA COM MT-YIDAKI NO DIDGERIDOO COM INFLUÊNCIAS DO ESTILO TRADICIONAL E DA PERCUSSÃO AFRICANA
Como tem sido a evolução da utilização deste instrumento no nosso país?
Quando comecei a tocar, há 10 anos atrás, havia poucos músicos de didgeridoo, poucas bandas o utilizavam e não havia nenhuma banda dedicada. Hoje em dia há centenas de músicos e dezenas de construtores e pessoas que dão workshops. Há já várias bandas em todo o país que utilizam o didgeridoo como instrumento central.
Como achas que poderá evoluir o relacionamento do Didgeridoo com os portugueses?
Em 2006 fundámos a Associação Portuguesa de Digeridoo e criámos a Residência de Didgeridoo, uma ação de formação intensiva na qual 30 pessoas podiam aprender e conviver durante três dias com três dos melhores músicos europeus de didgeridoo. Este foi o primeiro grande passo para o crescimento do didgeridoo em Portugal, tanto pela aproximação que se criou entre estas pessoas como por todo o trabalho que começaram a desenvolver depois desta experiência. Desde esse ano todo o trabalho destas pessoas, de outras que se juntaram entretanto, as várias Residências de Didgeridoo e os vários Festivais de Didgeridoo e outras atividades que vão surgindo têm contribuido para um crescimento do panorama nacional e acredito que continuamos em expansão sendo até cada vez mais reconhecidos por países como França, Alemanha e Inglaterra que são muito fortes no didgeridoo.
Entre 1 e 3 de Setembro, realiza-se a 9ª edição do Festival Didgeridoo. De acordo com o cartaz e actividades, o que gostarias de destacar e aconselhar?
Os nomes internacionais são fortíssimos: RAMM conta com Mt-Yidaki no didgeridoo com influências do estilo tradicional e também da percussão africana, este foi um dos primeiros professores que trouxemos a Portugal e vale a pena ouvir e fazer o workshop com ele, o francês Zalem também está com uma sonoridade muito forte e invulgar, o Carlo Cattano tem uma musicalidade muito grande na sua execução e o Marcos Andreu que tem um conhecimento muito grande do estilo tradicional. Nas bandas nacionais haverá TEKA e O Som da Terra em dois estilos completamente opostos. Com os workshops e todas as atividades, as tendinhas alternativas, o calor do Algarve e todos os amigos que por lá se juntam vai ser mais um grande festival.
Tens previsto algum workshop ou curso para os próximos tempos? Quando e onde?
Estão a ser constantemente programados workshops e concertos, tanto a solo como com a minha banda DIDGEnBASS, para quem quiser ir estando a par recomendo uma visita ao site www.didgetc.com onde vou atualizando toda esta informação.
Quero aproveitar para agradecer ao Ave Rara pela entrevista e também a toda a minha família, amigos e colegas que me têm acompanhado ao longo destes anos e também ao povo Aborígene Australiano, ou Yolngu como se designam, por terem partilhado connosco este instrumento fantástico.
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